sábado, 16 de fevereiro de 2019

Homenagem ao povo de Brumadinho





Brumadinho é mais conhecida por seu maior atrativo: o Instituto Inhotim, que mistura arte e natureza. Considerado um dos mais importantes museus de arte contemporânea do mundo, nele estão 500 obras distribuídas em áreas abertas e pavilhões, cercados por jardins e lagos.


Instituto Inhotim

Inhotim: O museu possui muitas obras criadas especialmente para sua exposição permanente. Os acervos são mobilizados para o desenvolvimento de atividades educativas e sociais para públicos de faixas etárias distintas. Também reúne uma exuberante coleção de plantas, que faz parte das maiores coleções botânicas do mundo.



Casa de Cultura de Brumadinho

Brumadinho: Situada a 63 km da capital mineira, o verde dá o tom na cidade de Brumadinho. Principal cidade da região que oficialmente é chamada de Vale do Paraopeba, a cidade é pequena e tem jeito de cidade do interior, mas possui vários atrativos naturais e culturais. 






No suave sobe e desce de suas ladeiras, quem chega lá não tem dúvida: está nas Minas Gerais, um lugar para curtir sem pressa, ao ritmo de uma boa prosa com café e pão de queijo. 


Igreja dedicada a Nossa Senhora do Belo Ramo

Igrejas: Em toda a região há várias igrejas, tanto evangélicas quanto católicas. Geralmente as celebrações católicas são realizadas na Igreja matriz de São Sebastião, porém existe outra igrejinha bem interessante dedicada a Nossa Senhora do Belo Ramo. 

De acordo com a tradição, antes do descobrimento do Brasil existia um santuário dedicado à Nossa Senhora no sul da França, chamado de Betharram, que em hebreu significa "Belo Ramo".  O nome dado à santa está relacionado a um fato. 

Segundo contam, uma menina que colhia flores nas margens do rio Gave escorregou e foi arrastada pela correnteza. Desesperada pediu socorro à Nossa Senhora e imediatamente viu perto de sua mão surgiu um galho. Segurando-o, conseguiu chegar à margem e salvou sua vida. Assim teve início a devoção à Nossa Senhora do Belo Ramo, a qual pedimos nos livrar das correntezas, das tempestades e dos perigos que possam ameaçar. 



Quilombo Marinhos

Quilombos: Além de suas antigas igrejas, nas imediações de Brumadinho existem quatro quilombos onde é possível usufruir de uma experiência transformadora. Herança das antigas fazendas da região, que mantinham  mão de obra essencialmente escrava, os quilombos são parte importante da cultura local. Atualmente nos arredores da cidade existem quatro comunidades reconhecidas pela Fundação Palmares. 

Antes bastante isoladas, atualmente as comunidades estão abertas para o turismo. Esse é o caso do Quilombo Marinhos, onde os turistas são recebidos pelo "Seu Cambão", patriarca da família Silva. É ele quem dá as boas-vindas ao turista. Com um sorriso no rosto e distribuindo abraços acolhedores, leva os forasteiros até a sua casa. Seu filho Reinaldo, mais conhecido como Rei Batuque, fala sobre os projetos sociais que vem realizando para valorizar a cultura local. 




Vale do Paraopeba: O vale compreende as cidades de Brumadinho, Belo Vale, Bonfim e Moeda, onde existem muitas fazendas, alambiques de cachaça, histórias e um museu dos tempos do ciclo do ouro. Passando por algumas estradas de terra e seguindo até um riacho é possível descobrir belos lugares, como a Fazenda Boa Esperança, que pertenceu ao homem mais poderoso que existiu na região entre 1823 e 1855: o Barão de Paraopeba. 


Ao final do século 17 o Vale do Paraopeba foi ocupado por bandeirantes, que vinham de São Paulo e Rio de Janeiro em busca de ouro e pedras preciosas. Nessa época foram fundados os povoados de São José do Paraopeba, Piedade do Paraopeba, Aranha e Brumado do Paraopeba, também conhecido como Brumado Velho. Também existia um pequeno vilarejo sem nome. Devido às brumas que se formava em toda a região montanhosa, o povoado recebeu o nome de Brumadinho. 






Piedade do Paraopeba: aos pés da Serra da Moeda está o pequeno distrito de Piedade do Paraopeba, que é cercado por uma generosa natureza. O local começou a ser habitado em 1674, época em que os bandeirantes paulistas vinham até o Vale do Rio Paraopeba em busca de ouro e pedras preciosas na sonhada Serra das Esmeraldas, cuja riqueza jamais foi encontrada. 


Igreja dedicada a Nossa Senhora da Piedade

Mais antiga do que Ouro Preto, Sabará e muitas outras cidades históricas de Minas Gerais, r, Piedade do Paraopeba encontra-se uma igreja barroca inaugurada em 1713. Dedicada a Nossa Senhora da Piedade, a  imagem original que ocupa o altar mor veio de Portugal em 1731. A pequena capelinha daquela época deu lugar à suntuosa Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, tornando-se numa das imponentes edificações religiosas da arquitetura colonial mineira.




Serra da Moeda: As serras de Brumadinho são locais preferidos para os praticantes de parapente e balonismo. Da Serra da Moeda é possível ver o Arraial de Tejuco e a cidade de Brumadinho, além da Serra de Igarapé, a Pedra Grande de Igarapé e o horizonte pelos lados da cidade de Moeda. 

Estudiosos afirmam que o nome da serra  está ligado ao um fato histórico, que aponta a região como o local onde surgiu nos tempos da colônia, a primeira fábrica clandestina de dinheiro no Brasil. No alto está o famoso restaurante Topo do Mundo, que oferece uma deliciosa gastronomia.






Serra da Calçada/Forte de Brumadinho: Na Serra da Calçada encontra-se o Forte de Brumadinho,  também conhecido como Forte da Piedade ou Casa de Pedra. Localizado em uma área da Mineradora MBR, o acesso ao forte pode ser feito por várias rotas, sendo mais fácil acessá-lo a partir do Distrito de Piedade do Paraopeba. 





As trilhas que cortam a região, inclusive as que levam ao Forte, possuem calçamento em pedras, cujo desgaste revela intensa movimentação no passado de tropas e pessoas.  A construção em formato de um retângulo é do século 18. Com área total em torno de uns 2000 m², suas paredes e muralhas, compostas por pedras cuidadosamente sobrepostas e trabalhadas, possuem aproximadamente 5 metros de altura e 1 metro de espessura. 





Há uma única entrada, mas em seu interior há uma construção menor com amplas janelas. Não se sabe ao certo sobre a finalidade dessa construção. Alguns dizem que no local havia um entreposto de mercadorias às margens da Estrada Real. Outros afirmam que houve um ponto de fiscalização da atividade de mineração na região. Por ser uma grande fortaleza é provável que algo muito importante acontecia ali. Hoje o forte está abandonado, mas ainda pode ser admirado.






Vale do Charme: Entre montanhas se estende o Vale do Charme, destino sob medida para um fim de semana longe da agitação das grandes cidades. Há muitas pousadas por ali, mas nenhuma delas é tão romântica quanto a Pousada Estalagem do Mirante. Com estilo rústico, de todos os chalés tem-se uma vista quase infinita do vale.





Parque Estadual da Serra do Rola Moça: Outro local de Brumadinho, extremamente interessante para quem gosta de atrativos naturais, é o Parque Rola Moça. Quem caminha pelo parque fica deslumbrado com a exótica vegetação de muitas cores. E por que a serra tem esse nome? 

Segundo conta a lenda, após o casamento um casal atravessava a serra para voltar para casa. Porém o cavalo pisou em falso no cascalho e a dupla despencou ladeira abaixo. O marido desceu pela ribanceira atrás da moça e assim o local passou a ser chamado Serra do Rola-Moça.

De um pico secundário é possível ver regiões de Belo Horizonte, além do conjunto da Serra do Rola Moça, Serra do Curral e até a Serra da Piedade em Caeté. A oeste é possível ver várias cidades da região, como Ibirité, Mário Campos e Sarzedo e a Serra do Elefante bem distante, já na cidade de Mateus Leme.





Casa Branca: Abaixo do Parque do Rola Moça existem diversos condomínios, como o distrito de Casa Branca, onde  encontra-se o Templo budista Chagdud Gonpa Dawa Drolma. Nos muitos sítios da região, em meio à natureza paira a tranquilidade.


Cachoeira da Ostra

Cachoeiras: Nas montanhas de Brumadinho existem diversas cachoeiras, como a Cachoeira da Usina, Cachoeira da Ostra, Cachoeira de Águas Claras, Cachoeira dos Carrapatos entre outras. A região possui grandes mananciais de água, sendo que 1/4 da água que abastece Belo Horizonte vem dos mananciais de Brumadinho e dos municípios vizinhos. Há também uma grande lavra de água mineral, explorada pela empresa Hidrobrás e comercializada sob a marca Ingá. 





Pico dos Três Irmãos: A Serra dos Três irmãos é outro ótimo local para os praticantes de caminhadas ecológicas, trekkings e estudos acadêmicos, mas também para aqueles que queiram explorar o bioma da caatinga. Nesse local há cursos d'água em meio à mata atlântica, mas também alguns animais silvestres.




Canela de ema

O pico tem uma altitude média de 1400 metros e a vegetação é típica da mata atlântica-cerrado. Pelo caminho há flores diversas e de cores intensas: amarelas, roxas, brancas e de várias espécies, como quaresmeiras, alecrim do campo etc. A região é repleta de canelas de ema, uma planta que leva dezenas de anos para crescer poucos centímetros.  







A subida requer cuidado, pois é repleta de pedras miúdas, soltas e propícias para escorregões. A trilha íngreme leva ao topo dos picos, de onde é possível ter uma espetacular visão de 360 graus de todo o vale do Paraopeba e da região Sul de Belo Horizonte, além de todo o conjunto de serras que o circunda. O visual é de tirar o fôlego!...






Mina do Feijão: Todo o conjunto do Pico dos Três Irmãos está sob guarda das empresas mineradoras da região, que tem a obrigação de mantê-lo e preservá-lo. O subsolo de toda a região é rico em minério de ferro e no entorno dos Três Irmãos há intensa atividade de mineração. Apesar da beleza de todo o Vale do Paraopeba, o que realmente impacta o visual é a Mina do Feijão, da empresa Vale do Rio Doce.





A atividade da mineradora resultou em uma gigantesca cratera aos pés do conjunto do Pico dos Três Irmãos. Do alto é possível observar o trabalho intenso e barulhento na mineração. Mais impressionante é ver os gigantescos caminhões circulando por aquelas estradinhas, indo até a parte mais baixa dentro da cratera.



Barragem de rejeitos 1 (rompeu em 25 de janeiro 2019)

Também é possível ver o resultado: os imensos montes de resíduos que vão sendo depositados encima de degraus feitos para contenção. Nessa mina havia diversas barragens, porém a Barragem 1 continha 13.000 metros cúbicos de rejeitos.







É verdade que a mineração é uma atividade econômica importante, mas é inegável o impacto ambiental que causa. Chega a doer o coração!...


Tragédia em Brumadinho



E agora nos dói mais ainda, quando se observa a devastação causada pelo rompimento da barragem 1, que em 25 de janeiro de 2019 atingiu centenas de habitantes locais e mais de 600 empregados da própria empresa Vale do Rio Doce, além de causar um impacto ambiental de grandes proporções. 





O fato  ocorreu no horário de almoço, quando o refeitório estava lotado. O sistema de alarme falhou e centenas de pessoas foram surpreendidas pela violenta destruição. Nada restou...


Destruição causa pelos rejeitos da barragem


A enorme onda de lama saiu varrendo tudo o que encontrava pela frente, soterrando pessoas, construções, carros, caminhões, maquinários, instalações, árvores, pomares e hortas...
 




Muitos moradores das comunidades próximas e agricultores morreram. Os que sobreviveram, perderam tudo que haviam construído: suas casas, seus animais, suas plantações. Além de estarem desabrigados, também não possuem mais o que lhes servia de sustento. 






  visão de um drone logo após a tragédia   




Pousada Nova Estância




Pousada Nova Estância


Nada restou da Pousada Nova Estância


Da charmosa Pousada Nova Estância, que era frequentada por muitos turistas, nada restou. Seus proprietários, empregados e mais de 30 turistas foram soterrados. Apenas duas mulheres, que trabalhavam na pousada, conseguiram ser resgatadas em meio à lama. 


Viaduto da Linha Férrea destruído
Vagões do trem revirados pela lama
Caminhões e máquinas revirados pela lama

A lama revirou e empilhou caminhões e os grandes vagões que transportavam minério como se fossem caixas de papelão. Até mesmo o viaduto da linha férrea desabou, depois que a lama levou duas vigas enormes que serviam de sustentação.





Sobrevivente: Junto a um dos pilares do viaduto, Paloma esperou para ser resgatada. A jovem senhora foi surpreendida pela lama em sua casa, que era próxima à Pousada Nova Estância. Resgatada muitos metros adiante, ela relatou os seus momentos de terror. Para ela é como estivesse num grande liquidificador... 


Paloma após o resgate

Hospitalizada por alguns dias, ela sofreu apenas escoriações. Sua irmã, o marido e o pequeno filho não tiveram a mesma sorte e estão desaparecidos... O carro da família foi encontrado a poucos quilômetros do local. Da casa, nada restou...  


cão resgatado




Animais resgatados: Inúmeros animais foram surpreendidos pela inesperada devastação. Alguns foram resgatados, porém muitos não tiveram a mesma sorte. Devido à dificuldade de retira-los da lama, bois, cavalos e porcos foram abatidos. Outros animais menores buscaram refugio nas árvores, porém é provável que tenham sido contaminados pelos rejeitos e não sobrevivam.







Sobrevivente: Entre mortos e desaparecidos foram contabilizadas mais de 300 pessoas. Outras 400 pessoas foram resgatadas com vida, porém o sonador Lieuzo Luiz dos Santos está vivo graças a um verdadeiro milagre. No momento da tragédia, Lieuzo e um grupo de 20 pessoas estavam exatamente sobre a barragem realizando a instalação de equipamentos elétricos chamados piezômetros. (confira no vídeo)


 Do grupo, apenas Lieuzo sobreviveu. Após o resgate ele relatou: "Só vi o gramado abrindo, estourando, igual um vulcão. Deu a explosão e nós fomos para baixo. Não sei quantos metros descemos. Sorte que não tinha mais terra para cair em cima de mim. Teve uma hora que passei igual num funil de terra; me apertou forte e daí falei: morri... Desci igual uma bola rolando no meio das coisas. Caí fora do rejeito molhado, caí no seco, só minha perna estava soterrada. Aí fiquei cavando com a mão até tirar a minha perna. Eu acenava e ninguém me via. No meio da tarde apareceu um helicóptero bem pertinho; eu acenei mas o piloto não me viu..." Nesse momento, o devoto de Nossa Senhora Aparecida rezava para ter forças e continuar gritando. Com apenas uma perna fraturada, ele disse que ficou por horas à espera de socorro dos bombeiros. Já quase no final da tarde uma aeronave sobrevoou bem perto do buraco de rejeitos; ele foi localizado e resgatado...






Inacreditavelmente, outros operários também conseguiram sobreviver. Imagens capturadas pela câmera da empresa, mostra um veículo e uma máquina grande sendo engolidos pela enorme lama de rejeitos. 


Elias, William e Leandro

Por estarem num local onde os rejeitos estavam mais sólidos, os veículos ficaram acima dos rejeitos. Elias, William e Leandro foram resgatados, tendo apenas ferimentos superficiais. Apenas um deles estava com a perna quebrada. (confira no vídeo)






Outra sobrevivente desse caos foi Ana Paula Mota, uma motorista que dirigia um caminhão Fora Estrada 777, com 5 metros de altura, 11 metros de comprimento e 91 toneladas de minério na caçamba. Ela estava numa estreita estrada a apenas 500 metros da barragem, quando ocorreu o rompimento. (confira no vídeo)

Como estava de frente para a barragem, foi uma das primeiras pessoas a ver a enorme avalanche de lama que começava a avançar sobre os vagões, caminhões e instalações. A densa onde, com quase 20 metros de altura, veio em direção à estrada onde estava o caminhão de Ana Paula. Não havia espaço para manobrar e nem tempo para isso. Além disso, outro caminhão vinha subindo a estrada. Desesperada, Ana Paula tentou chamar a central pelo rádio e avisar sobre o rompimento da barragem.

Enquanto o mar de lama se aproximava, Ana Paula deu espaço para que o outro caminhão passasse. Engatou uma ré e mal acreditou ter conseguido escapar rodando 150 metros de ré. Mais adiante Ana Paula fez uma manobra e saiu ilesa envolta pela poeira. Ainda pode ver a lama engolir o refeitório que estava lotado. Por coincidência, naquele dia o horário de almoço dela e de outros  motoristas tinha sido antecipado. Se não fosse isso, hoje ela não poderia contar o que viu.


Bombeiros e voluntários: os heróis de Brumadinho

Espera-se que a justiça seja feita rapidamente e que os responsáveis sejam severamente punidos, para que sirva de exemplo para outros que irresponsavelmente visam apenas o lucro.
Indenizações não substituem sonhos e entes queridos perdidos!



Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

Seguidores