sexta-feira, 30 de março de 2012

Três Marias, o doce mar de Minas



Em Minas Gerais a cidade de Três Marias é envolta em mitos e lendas, a começar pelo seu nome. Conta-se que na região morava um casal com suas três filhas: Maria Francisca, Maria Geralda e Maria das Dores que ajudavam seus pais na hospedaria. Por isso, tropeiros, pescadores e viajantes passaram a se referir ao local como hospedaria das três marias.

Certo dia, as meninas foram se banhar às margens do rio. Inesperadamente surgiu uma grande correnteza que arrastou-as para o fundo do rio. Seus corpos nunca foram encontrados, mas muitos afirmam que três sereias aparecem nas margens do rio em noites de Lua Cheia. O local onde funcionava a hospedaria foi inundado pela barragem da represa. Em homenagem às Marias, a cidade passou a ser chamada Três Marias.










Três Marias é sinônimo de pesca, descanso, sossego e diversão. É desfrutar do conforto das pousadas ou acampar na beira do rio, andar pelo mato e ver o sol nascer nas palmas dos buritis que inspiraram Guimarães Rosa.

Quem mora nas barrancas do rio, aprende desde cedo a nadar como peixe no Velho Chico; é como chamam carinhosamente o Rio São Francisco. Ali se conta e se acredita em muitas lendas tais como do Caboclo d’Água, sereias, alma penada, encosto, mula-sem-cabeça e saci pererê.












Aos domingos todos vão orar, cantar hinos de louvor e se benzer com muita água, pois água não falta por lá: cachoeiras, praias e o imenso lago da barragem de Três Marias. Com incomparável cor azul, o lago se torna prateado em noites de Lua Cheia para enaltecer o grande sertão e as veredas. Do alto da Pedra do Mirante, sobre as duas rochas grandes vê-se tanta água que parece mar, o Doce Mar de Minas.










A natureza mostra sua força em Três Marias nas águas que vertem da barragem ou nas cachoeiras do Riachão, do Guará e outras ou nas cascatas que se escondem entre os grandes paredões de pedras. Ao lado do vertedouro, a escultura da Praça do Índio simboliza o homem dominando a natureza remetendo ao poder e força que há em cada um de nós. Pura magia, que é moldar o ambiente à sua volta e a si mesmo, controlando seus instintos, desejos e ações.












Cidade de construções antigas e casas de adobe pintadas de cal, árvores de cerrado: ipê amarelo e roxo, aroeira, jatobá, jenipapo, quaresmeira, buriti e gameleira centenária fazem seu cenário. Não é a toa que chamam Três Marias de óasis do sertão.

Nos quintais, rego d’água, monjolo, terreiro de terra batida onde galinhas d’angola e outras aves ciscam e porcos fuçam no chiqueiro. Quintais que é lugar também para muitos "causos" de pescador, serenatas e modas de violeiro. Trimariense é festeiro e cantador, luau e carnaval na praia além de outras festas.








A cidade tem gosto de comida da boa; Pacamã, Mandi, Surubim e tantos outros peixes da região. E dá água na boca ver tanto doce: doce de leite, curau de milho verde, Broa de fubá, pamonha, mel de abelha e rapadura. Nas portas das cozinhas, horta de legumes, verduras e plantas medicinais como erva-cidreira, funcho, losma, boldo, macelinha e outras.

Três Marias tem sabor de licor: de banana, jaboticaba, jenipapo ou abacaxi. Da janela, vê-se o pomar: laranjeiras, mangueiras, goiabeiras, tamarindeiros, limoeiros, bananeiras, mamoeiros, pés de cana, bambu, abacateiros, jabuticabeiras e outros pés de pau, frutos que poucos conhecem: Murici, Pequi e Araticum.













Dá gosto de ouvir as histórias do lendário Manuelzão, personagem imortalizado por Guimarães Rosa cuja memória é mantida viva em sua antiga casa transformada em Museu do Distrito de Andrequicé. Lá dentro sua mobilia e no quintal o banquinho onde Manuelzão costumava sentar-se à tarde para muita prosa.

Na cozinha ainda está a grande fornalha barrelada de cinza onde ardia o fogo noite e dia, que era para conservar a chaleira de ferro com água fervendo para coar café para quem chegar. Porque no sertão tudo é certo, incerta é a hora e o tempo que não se vê passar... Três Marias, é tudo de bom!



segunda-feira, 26 de março de 2012

Bom Jesus da Lapa, um santuário natural na rocha



Há mais de 300 anos, peregrinando pelo sertão baiano o ourives português Francisco de Mendonça chegou ao Morro da Lapa. Numa de suas inúmeras grutas, ele começou uma vida de eremita. Distribuiu seu bens e passou a andar vestido com uma grossa túnica carregando a imagem de Bom Jesus, por isso era chamado de Monge.

Algum tempo depois, ele fez de sua morada um santuário e passou a cuidar de pobres e doentes. Devido às constantes peregrinações de devotos, muitos resolveram morar nas imediações e assim nasceu o povoado de Bom Jesus da Lapa que logo se transformou em local de romarias ao santuário situado no centro oeste da Bahia.







A cada ano o santuário recebe mais de 700.000 fiéis provenientes de todo mundo, sendo considerado o segundo maior local de peregrinação do Brasil. O que torna especial esse lugarejo, capaz de encantar o mais cético dos visitantes, é o monumento natural de 90 metros de altura e 2.000 metros de diâmetro.

Em seu interior concentram-se seis grutas decoradas com imagens sacras que detalham o calvário de Jesus. Uma torre construída na entrada principal em formato de um castelo medieval é cercada por estátuas em bronze dos 12 apóstolos. As romarias tem início em julho mas o maior evento ocorre em 6 de agosto.





O grande diferencial da cidade de Bom Jesus da Lapa são as lapiás que lhe dão um estilo gótico e suas grutas que lhe dá um clima místico. Há 2 caminhos que dão acesso ao topo do morro onde estão o cruzeiro e as imagens da Via Cruzes em tamanho natural. No entanto, devido às pedras lisas e irregulares é preciso boas condições físicas para superá-lo. O caminho do morro é muito extenso e cansativo.

No Rio São Francisco os visitantes desfrutam de uma bela paisagem nos passeios de lancha e a grande ponte sobre o rio é um dos pontos de destaque da cidade. Se o dia é dedicado à devoção no Morro do Bom Jesus, à noite todos os caminhos levam à praça Marechal Deodoro, que concentra os bares, pizzarias e restaurantes.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Macau, a terra do sal



Chamada de Terra do Sal, Macau é uma das principais salineiras do Brasil. Tem o moinho de sal como símbolo da cidade, que representa as antigas salinas artesanais. Importados para Macau em 1910, existiam vários moinhos no antigo aterro das salinas restando hoje apenas um, que foi recuperado várias vezes.

Centrada na Ilha de Alagamar no Rio Grande do Norte, no entorno de Macau há várias ilhas habitadas como a de Santana, Quixabeira e Casqueira e as desabitadas como Guaxinim, Paraíso, Mosquito e Presídio. Outras ilhas permanecem submersas e emergem de acordo com a posição das marés. Algumas ilhas tem vegetação típica de mangue e outras são totalmente de dunas.








Macau surgiu depois de 1825 quando as águas do oceano Atlântico começaram a invadir a antiga Ilha de Manoel Gonçalves que era habitada por portugueses interessados na exploração e no comércio do sal. Impossibilitados de permanecer na ilha, os moradores partiram em busca de outro local e encontraram uma ilha que oferecia melhores condições para a instalação do povoado.

A agradável ilha descoberta recebeu o nome de Macau, nome originado da palavra chinesa Amangao que significa Porto de Ama - a deusa dos navegantes. Com o desaparecimento completo da ilha de Manoel Gonçalves, a pequena cidade de Macau cresceu e se consolidou como um povoado às margens do oceano Atlântico.






 

Até os anos de 1960 Macau era o maior centro portuário do Rio Grande do Norte em consequência de sua elevada produção de sal. Ao contrário do que se esperava, no final dos anos de 1960 foi construído um porto ilha no alto mar em Areia Branca com a finalidade de fazer o embarque de sal da região.

As belas praias de Macau se estendem por toda a Costa Branca. Urbanizada com calçadão, restaurantes, bares, pousadas, a praia urbana de Camapum é apropriada para esportes náuticos, trilhas ecológicas e outros esportes de praia. O Rio Açu-Piranhas margeia a cidade de Macau e da Ilha de Santana pode-se fazer um passeio de barco pelo rio alcançando o mar.







O antigo Porto da Pescaria é uma comunidade pesqueira com trapiche de embarque e desembarque de pescado e também é ponto de embarque para algumas ilhas através do Rio Conceição. Alguns pescadores moram ali há muitos anos e é do Porto da pescaria que pode-se ver o esplendido por do sol.

Há vários roteiros turísticos em Macau que inclui caminhadas ou cavalgadas pelo litoral e também pescaria em alto mar, onde são demonstradas técnicas de pesca artesanal. O Morro do Jardim e o Morro de São Bento servem como ponto de referência para os pescadores, embora haja muitos faróis que orientam os navegantes. O Farol de Macau com 11 metros de altura tem alcance luminoso de 12 milhas náuticas.


 
 
Pouco habitada, a Praia de Soledade tem águas muito cristalinas. Localizada a 25 km da cidade, no local funciona a exploração de petróleo e gás natural das plataformas da Petrobrás. A Fazenda Pocinhos é uma das maiores produtoras de petróleo do Estado, com dezenas de cavalos de petróleo ao longo de toda sua área. Uma peculiaridade desta praia é Maxixe, uma comunidade isolada que vivem da pesca artesanal.








Nas praias de Diogo Lopes, Barreiras, Soledade e também ao longo da margem do Rio Conceição há imensas dunas. Caracterizada como uma praia de pescadores e cercada pela natureza, Diogo Lopes é conhecida principalmente por sua linda paisagem, um cenário paradisíaco que serve de cenário para diversos eventos ecológicos, esportivos, religiosos e onde há a maior produção de sardinhas in natura.

Um dos principais destaques de Diogo Lopes é a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do Tubarão, com projetos de desenvolvimento sustentável incluindo a pesca e o turismo ecológico. A própria comunidade toma consciência da necessidade de preservar o ecossistema da região, evitando a pesca e o turismo predatórios.






Galinhos: Na maré cheia, Galinhos é uma ilha. Na maré baixa se torna uma península. Rodeada por dunas, salinas, manguezais e praias desertas, é uma bela paisagem preservada. O local mantém-se praticamente intocado devido à dificuldade do acesso.

Só é possível chegar até lá de barco ou de 4x4 viajando pela praia na maré baixa e cruzando dunas. Outra opção é estacionar em Pratagil de onde saem barquinhos que navegam numa travessia de 20 minutos por águas tranquilas e abrigadas. A principal atração é a Praia do Farol e o Farol de Galinhos.






Tradicional em Galinhos é o passeio em uma carroça de trapiche puxada por um jumento, o jumento taxi. Também é uma boa opção para quem chega a pé pelo rio Pratagil e precisa se deslocar até alguma pousada.

As vilas de Galinhos e Galos reúne muita gente que gosta de esportes a vela em suas águas claras, calmas, rasas e quentinhas onde sopram ventos fortes e constantes. No trajeto pela beira da praia até o farol estão alguns ranchos de pescadores com suas jangadas estacionadas que embelezam o cenário.

No fim da tarde é do farol que se tem a melhor visão do pôr do sol que cai no mar numa linda cena clássica em tons dourados e alaranjados. Neste fantástico ambiente natural uma das atrações são as enormes montanhas de sal.








É do porto-ilha de Areia Branca que partem navios com carregamento de sal para todo mundo. Existem diversas praias, como Upanema, Morro Pintado, Redonda, Cristovão e Ponta do Mel que é a praia mais conhecida e tem uma peculiaridade.

É exatamente nesse ponto da costa potiguar que o sertão encontra com o mar, criando um cenário exótico, com enormes falésias de terra avermelhada, vegetação da caatinga com cactus gigantes e animais típicos como cabras e jegues.





Dunas do Rosado: A praia e as dunas do Rosado situam-se em Porto do Mangue a 35 km pela nova rodovia que corta as falésias de Ponta do Mel e segue à beira-mar até a Praia do Rosado.

As majestosas dunas do Rosado que ocupam uma área de quase 10 km impressionam pelas matizes de cores de suas areias. O cenário que mais parece um deserto, já serviu de locação para algumas cenas da novela O Clone entre outras produções do cinema.



 
 
Na Costa Branca a vida construída na areia se move com o vento, mudando de cor e de lugar a todo momento. A branca areia contrasta com o tom ocre das falésias e o azul celeste do céu e do mar.

A beleza da mata e a riqueza da vida se mostram na paisagem castigada pelo sol e pelo vento, mas poucas vezes pela chuva. Um mundo desconhecido, sempre à margem e que revela a garra e o espírito de um povo guerreiro e vencedor.





Exploração do sal: No Rio Grande do Norte a exploração do sal é citada desde 1605, nas salinas que se formavam espontaneamente em Macau. Os maiores produtores de sal do Rio Grande do Norte são Macau, Galinhos, Guamaré, Caraúbas, Areia Branca, Grossos e Mossoró que concentram quase 100% de todo sal consumido no Brasil.

E ainda que não tenha mar, as salinas de Mossoró estão localizadas na várzea estuarina dos rios Mossoró e do Carmo que em algumas épocas são inundadas pelas águas do mar formando as salinas naturais.





Ao longo da história, o sal sempre teve um papel estratégico. Monarcas e governantes controlavam seus monopólios de sal desde os tempos antigos levando os povos a buscá-lo nos mais longínquos lugares.

Comercializado a preço de ouro, o sal trouxe riqueza a antigos povos. Onde faltava cada grama de sal era trocado por um grama de ouro. Em Roma, pela Via Salaria os romanos transportavam o precioso carregamento de sal recebendo como pagamento o Salarium, ou seja, o dinheiro para comprar sal que deu origem ao termo salário.




O sal era algo tão valioso, que nas viagens de Marco Polo pela China ele descreveu sobre moedas de sal cunhadas com o selo de Gengis Khan. Na China antiga apenas o ouro era mais valioso que o sal. Até o início do século 20, na Etiópia se usava discos de sal como moedas e em algumas regiões da África central era possível comprar uma noiva com um bom carregamento de sal.

Tão valioso, o sal ganhou um significado quase sagrado. Tornou-se sinônimo de graça, espírito, sabedoria, pureza e hospitalidade. Na Índia, devido ao imposto instituído sobre o sal, Ghandi liderou uma caminhada de milhares de pessoas até o mar entre 12 de Março e 5 de Abril de 1930, a famosa Marcha do Sal, para que o povo pudesse recolher o seu próprio sal e não pagar o imposto ao governo colonial britânico.





Produto praticamente inesgotável que serve de alimento, o sal tem 14.000 utilidades sendo utilizado como matéria prima para industrias químicas, têxteis e metalúrgicas. Durante o processo saturação e cristalização o sal permanece nos tanques de evaporação até ser submetido à lavagem com salmoura saturada para retirar as impurezas.




Flor de Sal: A Flor de sal é um tipo de sal coletado na camada superior das salinas, antes que se depositem no fundo e formem o nosso conhecido sal marinho. Por ser um produto artesanal e relativamente escasso, já que para cada 80 quilos de sal marinho produzido somente 1 quilo de Flor de Sal é extraído, é um dos tipos mais caros de sal disponíveis à venda no mercado gastronômico, que pode ser encontrado em vidrinhos ou caixinhas, com ou sem tempero de ervas.



Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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